Uma escrita simples para uma leitura fácil

A escrita simples é uma técnica que requere perícia para ser desenvolvida; já pedia Benjamin Franklin desculpa a um amigo pela extensão da sua carta porque não tivera tempo de escrever outra mais curta. A escrita simples é o conjunto de princípios que visam tornar o texto claro e perceptível ao leitor, em conjunto com boas opções de design, para juntos permitirem uma leitura fácil, ou seja, “uma escrita simples para uma leitura fácil”.

Parece simples mas é um trabalho exigente! Aprender a escrever de forma simples pressupõe a utilização de uma técnica, leva tempo mas para além de um dever que temos, escrever para ser compreendido, independente do ramo profissional e da mensagem a transmitir, é um direito, compreender aquilo que nos é comunicado. Aliás, Sandra Fisher Martins usou esta máxima, “The right to understand” para falar sobre aquilo que comparou ao apartheid da informação.

Simplificar a informação não passa por lhe retirar valor ou seriedade (também pode e deve comunicar ideias complexas) e nada tem a ver com infantilização nem sub-apreciação das capacidades do leitor.

Simples significa fácil de entender! Significa que se pensou no destinatário daquela informação. Já dizia Einstein que se não se conseguir explicar claramente, é porque não se domina o assunto, por isso, porque não estamos a comunicar de igual para igual, é importante partilhar a redação da informação, ou pelo menos pedir a sua apreciação a alguém a quem o assunto seja estranho.

citação de Einstein

Porquê mudar a forma como passamos a informação?

  • Para chegar a mais destinatários, contornando a iliteracia e as dificuldades de leitura até mesmo relacionadas com o idioma;
  • Para dar autonomia e assim permitir escolhas livres e conscientes, fazendo cumprir o artigo 9 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência;
  • Para fomentar a igualdade de oportunidades de modo a que que todos tenham acesso às mesmas coisas e assim aumentar a participação de todos na sociedade.

Por outro lado, um melhor conhecimento sobre o produto ou o serviço vais gerar mais aquisição, tal como maior fidelização por melhor compreensão. A clareza e perceção da mensagem tornam-se critérios de confiança para que o leitor consiga, sem esforço, interagir com a informação.

Merece, pois, menção o prémio que a associação Acesso Cultura instituiu e que reconhece entidades que já apresentam documentação numa linguagem clara. Identificar o documento com o símbolo da leitura fácil (na imagem) é também um meio de salvaguardar a sua acessibilidade.

logo europeu da escrita simples

Quem beneficia da escrita simples?

TODOS! O público alvo tanto podem ser as pessoas com deficiência intelectual e défice de atenção, como as crianças em fase de aprendizagem, disléxicos ou pessoas com pouca escolaridade, como os estrangeiros (e emigrantes) que não dominam a língua, ou os surdos que não a falam e por isso não a leem bem, ou um idoso com baixa visão e dificuldade em estar muito tempo de pé, ou seja, pessoas com dificuldades transitórias ou permanentes, sem esquecer todas as outras que não estão para perder tempo com um documento longo, “maçudo” e que não entendem. A escrita simples é por isso uma opção válida para todas as atividades, a começar pelas do quotidiano.

Mas um restaurante também pode acabar com os “floreados técnicos” e permitir que se perceba realmente o menu; os museus podem conseguir fazer com que a visita tenha realmente valor e constitua uma aprendizagem se facilitarem o acesso à informação dos textos e tabelas; as atividades de lazer partilham a responsabilidade com o participante da atividade se expressarem mais claramente as normas de conduta, de segurança e condições em vigor; os hotéis vendem mais serviços se os promoverem num diretório mais apelativo e claro; os postos de turismo tornam-se mais inclusivos se a informação chegar a Todos; as atividades performativas desconstroem a arte abstrata humanizando o discurso da sua programação. Ou seja, é uma abordagem transversal.

A escrita simples permite o acesso à informação, por isso deve ser aplicada em todos os formatos de comunicação, desde a escrita (textos, livros, publicidade, etc.), digital (sites) e audiovisual, ou seja, funciona até como uma base para desenvolver outros formatos de comunicação alternativos, como a audiodescrição e a escrita pictográfica, que por si já requerem estruturas simples.

Como em qualquer forma de comunicação, a escrita simples também assenta em três princípios: na sólida definição do que queremos transmitir (conteúdo), na forma como o queremos fazer (estilo, linguagem e construção) e na imagem que lhe queremos dar (design).

Como escrever de forma simples? 

  • Organizando a informação de forma lógica, hierarquizando-a em níveis de importância e interesse. Criando caixas ou formatações especiais para chamadas de atenção;
  • Sendo direto e claro, privilegiando a informação relevante. Evitando “palha” e ideias abstratas ou metafóricas e recorrendo a exemplos e ilustrações;
  • Usando palavras simples, comuns e conhecidas do leitor e evitando estrangeirismos, siglas, abreviaturas, palavras técnicas, etc. (se forem realmente precisas, será necessário explicá-las). Mantendo a consistência e coerência do vocabulário;
  • Desenvolvendo uma estrutura curta, tanto ao nível das frases como dos parágrafos (extensão dos textos), em que cada ideia corresponde a um parágrafo;
  • Adotando o discurso ativo e pessoal, optando por verbos em vez de substantivos, pronomes e voz ativa em vez da passiva, sistema de pergunta – resposta;
  • Facultando meios para a obtenção de informações complementares;

Em suma, a escrita simples possibilita que a informação possa ser lida e entendida por qualquer pessoa, independentemente das suas capacidades linguísticas ou cognitivas, por simplificar o seu conteúdo, melhorar a sua linguagem e otimizar o seu formato. Não se prende apenas com a capacidade de ler mas também de compreender. Ao escrever de forma simples estará a escrever melhor!