Uma escrita simples para uma leitura fácil

Aprender a escrever de forma simples pressupõe a utilização de uma técnica que leva tempo a interiorizar e dominar. Para além de ser um dever, escrever para ser compreendido, independente do ramo profissional e da mensagem a transmitir, é um direito, compreender aquilo que nos é comunicado. Aliás, Sandra Fisher Martins usou esta máxima, “The right to understand” (link) para falar sobre aquilo que comparou ao apartheid da informação.

O que é a Escrita Simples?

A escrita simples é uma técnica que requere perícia para ser desenvolvida, podendo, apesar do nome, ser difícil de aplicar. Trata-se de associar princípios de redacção com boas opções de design, para que tornando o texto claro e perceptível ao leitor, ou seja, simplificando-o, e trabalhando nas suas condições de leitura, permita uma leitura fácil.

Simplificar a informação não passa por lhe retirar valor ou seriedade (também pode e deve comunicar ideias complexas) e nada tem a ver com infantilizar nem sub-apreciar as capacidades do leitor. Passa por comunicá-la de forma mais acessível, pensando no destinatário daquela informação.

Simples significa fácil de entender. Seja para compreender o conteúdo como para comunicar a mensagem, o assunto a tratar tem que ser dominado para ser maleável e explicado claramente. Regra geral, não comunicamos entre pares, ou seja, para alguém com os mesmos pré-conhecimentos. A eficácia da mensagem final pode ser melhorada, partilhando a redação do texto, e testada, submetendo-a à apreciação de alguém a quem o assunto seja estranho.

Merece menção o prémio que a associação Acesso Cultura instituiu (link) e que reconhece entidades que já apresentam documentação numa linguagem clara. Identificar o documento com o símbolo da leitura fácil é também um meio de salvaguardar a sua acessibilidade.

Porquê mudar a forma como passamos a informação?

  • Para chegar a mais destinatários, contornando a iliteracia e as dificuldades de leitura, até mesmo relacionadas com o idioma;
  • Para dar autonomia e assim permitir escolhas livres e conscientes, fazendo cumprir o artigo 9 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência;
  • Para fomentar a igualdade de oportunidades de modo a que que todos tenham acesso às mesmas coisas e assim aumentar a participação de todos na sociedade.
  • Para uma melhor compreensão. Um melhor conhecimento sobre um produto ou serviço vai gerar mais interesse, mais aquisição, e maior fidelização. A clareza e perceção da mensagem tornam-se critérios de confiança para que o leitor consiga, sem esforço, interagir com a informação e fazer uso dela.

A escrita simples permite o acesso à informação, por isso deve ser aplicada em todos os formatos de comunicação, desde o escrito (textos, livros, publicidade, etc.), ao digital (sites) e audiovisual. Funciona até como uma base para desenvolver outros formatos de comunicação alternativos, como a audiodescrição e a escrita pictográfica, que por si já requerem estruturas simples, por isso, pensar na forma como passamos a informação influencia a amplitude do universo daqueles com que comunicamos.

Quem beneficia da escrita simples?

TODOS! O público alvo tanto podem ser as pessoas com deficiência intelectual e défice de atenção, como as crianças em fase de aprendizagem, disléxicos ou pessoas com pouca escolaridade, como os estrangeiros (e emigrantes) que não dominam a língua, ou os Surdos que não a falam e por isso não a leem bem, ou um idoso com baixa visão e dificuldade em estar muito tempo de pé. Ou seja, pessoas com dificuldades transitórias ou permanentes, sem esquecer todas as outras que não estão para perder tempo com um documento longo, “maçudo” e que não entendem, ou que “fica bem” ler.

A escrita simples é uma opção válida para todas as atividades, a começar pelas do quotidiano.

Um restaurante pode acabar com os “floreados técnicos” e permitir que se perceba realmente o menu; os museus podem conseguir fazer com que a visita tenha realmente valor e constitua uma aprendizagem se facilitarem o acesso à informação dos textos e tabelas; as atividades de lazer partilham a responsabilidade com o participante da atividade se expressarem mais claramente as normas de conduta, de segurança e condições em vigor; os hotéis vendem mais serviços se os promoverem num diretório mais apelativo e claro; os postos de turismo tornam-se mais inclusivos se a informação chegar a Todos; as atividades performativas desconstroem a arte abstrata humanizando o discurso da sua programação. Ou seja, é uma abordagem transversal.

Como escrever de forma simples?

Como em qualquer forma de comunicação, a escrita simples também assenta em três princípios: na sólida definição do que queremos transmitir (conteúdo), na forma como o queremos fazer (estilo, linguagem e construção) e na imagem que lhe queremos dar (design).

Recomenda-se:

  • Organizar a informação de forma lógica, hierarquizando-a em níveis de importância e interesse, criando caixas ou formatações especiais para chamadas de atenção;
  • Ser direto e claro, privilegiando a informação relevante, evitando “palha” e ideias abstratas ou metafóricas e recorrendo a exemplos e ilustrações;
  • Usar palavras simples, comuns e conhecidas do leitor e evitando estrangeirismos, siglas, abreviaturas, palavras técnicas, etc. (se forem realmente precisas, será necessário explicá-las). Manter a consistência e coerência do vocabulário;
  • Desenvolver uma estrutura curta, tanto ao nível das frases como dos parágrafos (extensão dos textos), em que cada ideia corresponde a um parágrafo;
  • Adotar um discurso ativo e pessoal, optando por verbos em vez de substantivos, pronomes e voz ativa em vez da passiva, sistema de pergunta – resposta;
  • Facultar meios para a obtenção de informações complementares;

Em suma, a escrita simples possibilita que a informação possa ser lida e entendida por qualquer pessoa, independentemente das suas capacidades linguísticas ou cognitivas, por simplificar o seu conteúdo, melhorar a sua linguagem e otimizar o seu formato. Não se prende apenas com a capacidade de ler mas também de compreender. Ao escrever de forma simples estará a escrever melhor!